O sucesso do Vasco não tardou a causar inveja. Os adversários resolveram submeter os jogadores do clube a investigações. Como o profissionalismo ainda não era oficial, os craques foram todos registrados como funcionários dos estabelecimentos dos portugueses. Assim, burlavam as leis ditadas pela Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT).
Quando os membros de sindicância da entidade _ Armando de Paula Freitas (América), Diócesano Ferreira Gomes, o “Dão” (Flamengo e “Correio da Manhã”) e Reis Carneiro (Fluminense) chegavam às firmas lusitanas para constatar a veracidade das informações prestadas pelo Vasco, os gerentes alegavam que os empregados estavam realizando “serviços externos”.
Na realidade, embora não se admitisse abertamente, muitos dos atletas dos principais clubes já recebiam para jogar. O procedimento do Vasco, assim, não era distinto do de seus adversários. Uma forma de burlar a regra era o pagamento não em dinheiro, mas com animais, o que deu origem ao tradicional “bicho”, que jogadores recebem até hoje. A verdade era que por trás daquele debate estava a indignação dos outros clubes diante dos bons resultados dos jogadores vascaínos. Os adversários do Vasco, que reclamavam dos pagamentos, de fato não suportavam ver aquele time formado por negros e mulatos posando de vencedor.
Desesperados, os adversários abandonaram a LMDT e criaram outra entidade, a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA). O Vasco tentou filiar-se, mas foi rechaçado, sob o argumento de que o clube alinhava “atletas de profissão duvidosa” e que não tinha um campo em boas condições. O Vasco não se deu por vencido. Permaneceu na LMDT, ao lado de outros 21 clubes pequenos, e ganhou o campeonato da entidade. O Fluminense ganhou o campeonato da AMEA.
Em 1925, graças à interferência de Carlito Rocha, dirigente do Botafogo, o Vasco acabou sendo admitido na AMEA. Carlito teve a habilidade de mostrar aos membros da entidade que não era mais possível, àquela altura, ignorar a importância do clube fundado pelos portugueses. A AMEA só impôs uma condição: o Vasco não poderia mandar suas partidas no estadinho da Rua Moraes e Silva. O Vasco acatou a determinação, passou a jogar no campo do Andarahy, à Rua Barão de São Francisco _ onde está hoje o Shopping Iguatemi _, e passou a guardar sob sete chaves uma surpresa para os adversários.
O segredo não durou muito. No começo de 1926 o clube iniciou a “Campanha dos Dez Mil”, que arrecadou 685 contos e 895 mil réis, além de 6.600 barris de cimento e 252 toneladas de ferro. No dia 6 de junho, o prefeito do Rio, Alaor Prata, lançava a pedra fundamental de São Januário. No dia 27 de abril de 1927, dez meses após o início das obras, o Vasco inaugurava o seu estádio, então o maior do Brasil, para 45 mil torcedores. Um autêntico “tapa com luva de pelica” em todos os que duvidaram de sua capacidade.

