Reza a lenda que quando o Vasco derrotou o Andarahy por 12 x 0, no Carioca de 1937, o ponta Arubinha enterrou um sapo no gramado de São Januário, rogando praga para o time local ficar 12 anos sem ganhar campeonatos. A maldição de Arubinha chegou a assustar. Mas só resistiu até 1945, quando o Vasco montou o fabuloso “Expresso da Vitória”, conquistando cinco títulos do Rio e um Sul-Americano em um período de oito anos. Três desses títulos (os cariocas de 1945, 1947 e 1949) foram ganhos sem derrota.
Na realidade, a história do “Expresso da Vitória” começa em 1942, quando Cyro Aranha, comerciante da Rua do Acre, assumiu a presidência do Vasco. Entre 1942 e 1943, Cyro contratou o renomado treinador uruguaio Ondino Vieira e abriu os cofres do clube e de firmas de ilustres torcedores. O dinheiro serviu para contratar um punhado de craques, como o goleiro Barbosa, o zagueiro Rafanelli, os médios Eli e Berascochea e os atacantes Lelé, Isaías, Jair da Rosa Pinto, Ademir Menezes e Chico.
O time demorou três anos para acertar o passo. Em 1942, foi o sétimo colocado; em 1943, o quarto; em 1944, vice, e em 1945, campeão. A campanha não deixava dúvida quanto ao futuro: 13 vitórias, cinco empates, 58 gols pró (média de 3,2 gols por partida) e apenas 15 gols contra. O time-base era formado por Rodrigues (Barbosa, ainda novato, só jogou uma vez), Augusto e Rafanelli; Berascochea, Eli e Argemiro; Djalma, Ademir Menezes, Lelé, Isaías (Jair da Rosa Pinto) e Chico.
Ondino saiu, Ernesto Santos assumiu, e o time, excessivamente confiante, deixou-se surpreender em 1946, ficando apenas em quinto lugar no Carioca, embora tenha conquistado os torneios Relâmpago e Municipal. O Vasco só recuperou seu terreno em 1947, quando Cyro, numa jogada de mestre, levou Flávio Costa (campeão em 1939, 1942, 1943 e 1944 pelo Flamengo) para São Januário. O novo treinador trocou algumas peças da engrenagem _efetivou o grande goleiro Barbosa, Danilo, Jorge e Maneca_ e terminou o Carioca com sete pontos de vantagem sobre o Botafogo.
Em 1948, o Vasco viveu uma grande alegria e uma grande tristeza. A festa ficou por conta da conquista do Torneio Sul-Americano de Clubes Campeões, disputado no Chile, primeiro título do futebol brasileiro, incluindo competições da Seleção, no exterior. A decepção veio no fim do ano, na derrota de 3 x 1 para o Botafogo, na decisão do Carioca, em General Severiano. Há quem garanta, passados mais de 50 anos, que gente ligada ao alvinegro adicionou alguma droga no café que os jogadores cruzmaltinos tomaram no intervalo. Mas nunca houve quem comprovasse tal história.
Em 1949 e 1950, o Vasco retomou a hegemonia do futebol do Rio. O time de 1949 é apontado como o melhor do “Expresso”: Barbosa, Augusto e Sampaio (Wilson); Eli, Danilo e Jorge; Nestor, Maneca (Ipojucan), Heleno de Freitas, Ademir Menezes e Chico. Obteve 18 vitórias e dois empates em 20 partidas. Uma covardia. A equipe de 1950, base da Seleção que perdeu a Copa do Mundo em pleno Maracanã para o Uruguai, chegou a ser três vezes derrotada no primeiro turno, mas acabou mostrando enfim sua superioridade no final do Carioca.
Em 1951, o “Expresso” começou a perder o fôlego. Sofreu sete derrotas no Carioca e chegou em apenas quinto lugar, a nove pontos do campeão, o Fluminense. Em 1952, reformulado, respirou pela última vez. Gentil Cardoso substituiu Flávio Costa, aproveitando novatos como Bellini, Sabará e Vavá, e o time acabou obtendo uma boa vantagem sobre o vice, o Flamengo. Após o último jogo do Carioca de 1952 (1 x 0 no Olaria, em 21/1/1953), o técnico Gentil Cardoso deu a volta olímpica e foi aplaudidíssimo pelo público. Gentil sabia que os dirigentes pretendiam trocá-lo por Flávio Costa. E disse, orgulhoso: “Estou com as massas. E quem está com as massas não cai. A voz do povo é a voz de Deus”. Três dias depois, Flávio assinou com o Vasco.

